Pular para o conteúdo
Rikezas
Dívidas

Como organizar as dívidas antes de renegociar (e não cair em acordo ruim)

A renegociação boa começa antes da ligação: com a lista das dívidas e a conta de quanto cabe por mês.

Equipe Rikezas · 9 min de leitura
Capa com a frase "Primeiro a lista" sobre como organizar as dívidas antes de renegociar com os credores.
Neste artigo
  1. O erro de renegociar dívidas sem plano
  2. A lista das dívidas
  3. Quanto cabe por mês
  4. Como negociar
  5. Programas oficiais
  6. Dívida indevida: contestar antes
  7. Perguntas frequentes

O telefone toca, a atendente oferece parcelar a dívida “com condição especial só hoje”, e a pessoa aceita na hora, aliviada. Dois meses depois, a parcela do acordo não cabe junto com as outras contas, o acordo cai e a dívida volta, muitas vezes sem o desconto. Quem vai renegociar dívidas costuma achar que o trabalho começa na ligação. A renegociação boa começa antes, com uma lista e uma conta de quanto cabe no mês.

O erro de renegociar dívidas sem plano

Negociar sem plano costuma dar errado de três jeitos:

  • Aceitar a primeira oferta. Ela vem do credor, com o número que é bom para ele. Sem saber o saldo e a taxa, você não tem como dizer se o acordo é bom ou ruim.
  • Olhar só a parcela. Uma parcela que parece pequena, em muitos meses, pode somar quase o dobro do que você devia.
  • Negociar uma dívida de cada vez, sem ver as outras. Cada acordo isolado parece caber. Somados, passam do que sobra no mês.

O caminho mais seguro tem uma ordem: listar tudo, calcular quanto cabe, separar o que é cobrança indevida e só então conversar com os credores, já sabendo o seu limite.

A lista das dívidas

Pegue extratos, faturas, contracheque e as mensagens de cobrança. Para cada dívida, anote:

  1. Credor e número do contrato. Você vai precisar deles na negociação.
  2. Saldo devedor de hoje. Quanto o credor pede para quitar agora, não a soma das parcelas que faltam.
  3. Taxa de juros. De preferência ao mês, para comparar uma com a outra na mesma base.
  4. Parcela e quantas faltam, se houver parcela fixa.
  5. Situação: em dia, atrasada (desde quando) ou contestada.

Veja o caso hipotético da Carla. Ela tem renda líquida de R$ 4.200 por mês e quatro cobranças. Uma delas, uma conta de celular de R$ 380, ela não reconhece: fica fora da lista de negociação por enquanto (o motivo está no fim do texto). As outras três:

DívidaSaldoTaxa ao mêsParcelaJuros no mês
Cartão de crédito (atrasado)R$ 4.80013,0%sem parcelaR$ 624,00
Empréstimo pessoal (19 parcelas)R$ 6.0004,5%R$ 480R$ 270,00
Crediário da loja (7 parcelas)R$ 1.2003,9%R$ 210R$ 46,80
TotalR$ 12.0007,84%R$ 690R$ 940,80
Taxas supostas para o exemplo. Na linha do total, a taxa é a média ponderada pelo saldo.

A lista já conta uma história. O cartão é 40% do que a Carla deve, mas gera 66% dos juros do mês. A 13% ao mês, ou cerca de 333% ao ano, ele é a dívida mais cara e a que mais cresce: se ficar parado, os R$ 4.800 viram R$ 5.424,00 em um mês, R$ 6.129,12 em dois e R$ 6.925,91 em três. É por ele que a negociação começa. O critério de ordenar pela taxa está explicado em quais dívidas pagar primeiro.

O empréstimo e o crediário estão em dia e têm parcela fixa. Não há pressa em mexer neles: o crediário acaba em 7 meses e libera R$ 210 por mês. Renegociar o que está em dia pode até alongar o prazo e aumentar o total.

Quanto cabe por mês

Aqui está o número que decide qualquer acordo. A conta é simples, mas precisa ser honesta:

Renda líquida − gastos essenciais − folga = o que cabe para dívidas

Gastos essenciais são aluguel, contas da casa, mercado, transporte, remédios, escola: o que não dá para cortar no mês que vem. Use os valores reais dos últimos meses, não os que você gostaria de gastar. A folga é uma reserva pequena para o imprevisto, porque um gás que acaba ou uma consulta não podem derrubar o acordo.

No caso da Carla: R$ 4.200 de renda, R$ 3.150 de gastos essenciais e R$ 100 de folga. Sobram R$ 1.050 depois dos essenciais, e R$ 950 cabem para dívidas. Como ela já paga R$ 690 de parcelas fixas no empréstimo e no crediário, o espaço para um acordo do cartão é de R$ 260 por mês. Esse é o teto que ela leva para a negociação.

Se você não sabe quanto gasta com o essencial, comece por aí. A regra 50/30/20 ajuda a separar o que é necessidade do resto. No Rikezas, você cadastra o orçamento do mês e as dívidas com saldo, taxa e parcela, e enxerga num lugar só quanto sobra e quanto cada dívida custa de juros.

Se nada cabe, o problema não é a negociação. Quando os gastos essenciais já tomam toda a renda, nenhum parcelamento resolve. Nesse caso, olhe primeiro os cortes possíveis e a lei do superendividamento, explicada mais abaixo.

Como negociar

Com a lista e o teto em mãos, a conversa muda. Você deixa de reagir à oferta e passa a dizer o que consegue pagar. Veja duas propostas para o cartão da Carla:

ItemPrimeira ofertaDepois da lista
Parcelas24 × R$ 39018 × R$ 245
Total do acordoR$ 9.360R$ 4.410
Diferença para o saldo de R$ 4.800R$ 4.560 a maisR$ 390 a menos
Todas as parcelas do mêsR$ 1.080R$ 935
Em relação aos R$ 950 que cabemfaltam R$ 130sobram R$ 15
Ofertas hipotéticas. “Todas as parcelas” soma o acordo aos R$ 690 do empréstimo e do crediário.

A primeira oferta parece um alívio, porque troca uma dívida que cresce por uma parcela fixa. Mas embute juros de 6,21% ao mês e soma R$ 9.360, quase o dobro do saldo. Pior: com ela, as parcelas do mês chegam a R$ 1.080, R$ 130 acima do que cabe. Esse é o acordo que cai no terceiro ou quarto mês.

A segunda cabe no teto, termina em 18 meses e sai R$ 4.950 mais barata no total, com 8,1% de desconto sobre o saldo. A margem de R$ 15 é apertada, mas a folga de R$ 100 já está separada, e depois do sétimo mês, quando o crediário acaba, a sobra passa para R$ 225. Nem todo credor vai aceitar uma proposta assim, mas a conversa só chega nela quando você sabe o seu limite.

O que pedir e o que conferir

  • Comece pela dívida mais cara e pergunte pelo valor à vista e pelas opções parceladas. Se você tem algum valor guardado, compare o desconto à vista com o total parcelado.
  • Diga o valor que cabe. Não o que sobra num mês bom, o que cabe todo mês.
  • Pergunte o total do acordo, o número de parcelas, a taxa embutida e o que acontece se uma parcela atrasar.
  • Peça tudo por escrito antes de pagar o primeiro boleto, com o número do contrato que está sendo quitado.
  • Pague só por canais oficiais do credor ou da plataforma de negociação. Desconfie de boleto enviado por número desconhecido.
  • Guarde o comprovante de quitação quando o acordo terminar.

Um acordo bom é o que você consegue cumprir até a última parcela. Para ver como encaixar o pagamento das dívidas no mês sem pegar dinheiro novo, leia como sair da bola de neve das dívidas.

Programas oficiais

Desenrola: sem edição ativa para pessoa física

O Novo Desenrola Brasil foi criado pela Medida Provisória 1.355, de 04/05/2026, para pessoas físicas com renda de até 5 salários mínimos. A MP perdeu a validade em 31/08/2026 sem virar lei, como registra o Ato Declaratório nº 89, de 04/09/2026, conferido no Planalto em 12/10/2026. Até 12/10/2026, não havia nova edição do Desenrola para pessoa física em vigor.

Programas de renegociação aparecem e acabam. Antes de negociar, confira se há algum novo na página do Desenrola no gov.br, e desconfie de sites e mensagens que usam o nome do programa para cobrar taxa de adesão.

Serasa Limpa Nome

O Serasa Limpa Nome é uma plataforma para negociar dívidas com empresas parceiras, pelo site, pelo aplicativo, pelo WhatsApp oficial ou em agências dos Correios. Consultar as ofertas é gratuito. A própria Serasa avisa que nem toda dívida terá oferta; nesse caso, o caminho é procurar o credor direto. A oferta que aparece lá passa pelo mesmo teste: total do acordo e parcela dentro do que cabe.

Lei do Superendividamento

Para quem não consegue pagar as dívidas de consumo sem comprometer o básico para viver, existe a Lei 14.181/2021, que incluiu regras no Código de Defesa do Consumidor, conferido no Planalto em 12/10/2026. Ela considera superendividada a pessoa física de boa-fé que não consegue pagar todas as dívidas de consumo sem comprometer o mínimo existencial (art. 54-A).

Pelo art. 104-A, a pedido do consumidor, o juiz pode abrir um processo de repactuação, com audiência de conciliação com todos os credores. O consumidor propõe um plano de pagamento de até 5 anos, que precisa preservar o mínimo existencial. Ficam de fora, entre outras, as dívidas feitas de propósito sem intenção de pagar.

O mínimo existencial é de R$ 600 por mês, pelo art. 3º do Decreto 11.150/2022, com a redação do Decreto 11.567/2023, conferido no Planalto em 12/10/2026. Em 23/04/2026, segundo notícia do Supremo Tribunal Federal da mesma data, o STF decidiu que o Conselho Monetário Nacional tem de avaliar todo ano se atualiza esse valor e que as parcelas do consignado não podem ficar de fora do cálculo do mínimo existencial. Até 12/10/2026, não havia norma com valor novo: confira a regra vigente antes de usar esse número.

Dívida indevida: contestar antes

Lembra da conta de celular de R$ 380 que a Carla não reconhece? Ela ficou fora da lista de propósito. Se você acha que uma cobrança é indevida, porque não contratou o serviço, já pagou, foi cobrado em dobro ou o valor está errado, resolva a contestação antes de negociar. Fazer um acordo sobre uma dívida que você contesta é, na prática, aceitar que ela existe e pagar por ela.

  1. Reúna as provas: comprovantes de pagamento, cancelamento, contrato, faturas, conversas.
  2. Conteste por escrito com a empresa e anote o número de protocolo de cada contato.
  3. Se não resolver, procure os órgãos de defesa do consumidor da sua cidade ou estado.
  4. Só depois de uma resposta decida: se a cobrança for confirmada como devida, ela entra na lista e na conta de quanto cabe; se não, ela sai de vez.

Com a lista limpa, o teto calculado e as indevidas separadas, a renegociação deixa de ser um susto ao telefone e vira uma decisão. Depois do acordo, cadastre as parcelas novas e acompanhe mês a mês: no Rikezas, cada dívida mostra o cronograma até a última parcela, o que ajuda a não perder nenhum vencimento.

Perguntas frequentes

É melhor pagar a dívida pelo Serasa ou pelo banco?

Depende da oferta, não do canal. No Serasa Limpa Nome, a proposta vem do próprio credor parceiro, e consultar é gratuito. Compare a oferta de lá com a que o banco faz direto pelo total do acordo e pela parcela, e fique com a que custa menos e cabe no mês.

Como posso juntar todas as minhas dívidas em uma só?

Juntar as dívidas numa só exige uma operação nova, e ela só ajuda se a taxa for menor que a média das dívidas atuais e o total a pagar cair. No exemplo da Carla, a média é de 7,84% ao mês. Antes de pensar nisso, faça a lista e a conta de quanto cabe, e compare o custo efetivo total (CET), não só a parcela.

O que acontece se eu pegar 10 mil no banco e não pagar?

A dívida continua existindo e cresce com os juros e os encargos de atraso previstos no contrato. O nome pode ser incluído em cadastros de inadimplentes, o que dificulta conseguir crédito, e o banco pode cobrar a dívida na Justiça. Quanto antes você organizar a lista e procurar o credor, mais fácil é chegar a um acordo que caiba.

Compartilhar: WhatsApp Copiar link
Equipe Rikezas

Escrevemos sobre patrimônio, dívidas e independência financeira com exemplos em números. O conteúdo é educativo e não é recomendação de investimento.

Agora que você sabe calcular, deixe o Rikezas fazer isso todo mês

Patrimônio líquido, dívidas, orçamento e o ano da sua independência, num lugar só.

Criar conta grátis